Jerônimo Pedroso e Joana Vaz de Barros, patriarcas sefarditas

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Os portugueses ainda estavam expandindo seu império quando o lisboeta Jerônimo Pedroso brincava pelas ruas da capital. Era a primeira metade do Século XVI e o Estado português já havia decretado o fim da religião judaica em seu território. Em tese, não haviam mais judeus (exceto aqueles que praticavam a religião às escondidas, os criptojudeus), apenas os cristãos-novos, ou seja, judeus convertidos ao Catolicismo, em sua maioria, à força.

Entre a nova leva de cristãos-novos estava aquela que viria a ser a esposa de Jerônimo, Joana Vaz de Barros, meia cristã-nova, que nascera por volta de 1545. Filha natural (fora do casamento) de Reinaldo de Barros, Joana Vaz de Barros era tia do Padre Antônio de Barros, um verdadeiro predador sexual, preso pela Inquisição de Lisboa pelos 37 crimes de solicitação, ou seja, por assediar as fiéis no confessionário. Fato é que o padre confessou os crimes e levantou suspeitas nos inquisidores de ter sangue cristão-novo, o que foi confirmado por várias testemunhas. No entanto, não sendo esta questão relevante para o crime em causa, as dúvidas não foram totalmente esclarecidas.

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Mas voltemos a Jerônimo Pedroso, que era irmão inteiro de Isabel Pedroso, mulher do negociante e armador Rodrigo Lobo, perfeitamente enquadrado nas redes familiares e mercantis cristãs-novas de Lisboa no século XVI. As suspeitas aumentam quando levamos em consideração que o padrinho de um dos filhos deste casal, a quem foi dado o nome de Luís , foi Manuel Caldeira, contratador e tesoureiro-mor do Reino, cuja descendência foi penitenciada pelo Santo Ofício. Outros filhos do mesmo casal foram Valentim, Bernarda e Antônio, todos claramente identificados como cristãos-novos pelo tabelião Octaviano Manrique da Veiga, quando depôs no processo do Padre Antônio de Barros.

Perseguição à descendência

Até 1569, Jerônimo Pedroso e sua mulher viveram em Lisboa, mas depois há registros de que viveram em Faro e em Tavira, onde aquele foi negociante. Depois de viúvo, Jerônimo tornou-se clérigo e foi atuar no Potosi, no Vice-Reino do Peru, onde já viva o seu irmão Manuel Pedroso.

Jerônimo e Joana foram pais de Bernarda Pedroso, Lucrécia Pedroso, Antônio Pedroso de Barros e Pedro Vaz de Barros. A primogênita, Bernarda, nasceu em Lisboa por volta de 1568, mas ainda criança acompanhou seus pais à cidade de Faro, onde foi crismada. Casou-se por volta de 1585 com o cristão-novo Fernão Mendes, mercador em Tavira. Seis anos mais tarde, no dia 9 de março de 1591, foi presa pela Inquisição de Évora, acusada dos crimes de judaísmo, heresia e apostasia. Na sessão de genealogia, realizada em 12 de julho do mesmo ano, decalrou ter 23 anos de idade e ser cristã-nova, vindo a morrer de febre nos cárceres a 6 de outubro desse mesmo ano.

A segunda filha, Lucrécia, foi presa no mesmo dia que sua irmã, em Évora, com confisco de bens, aos 21 anos de idade. Quatro dias depois de presa, confessou práticas judaicas e foi posta em tormento (tortura) por se negar a dizer algo incriminador sobre Bárbara Filipe, que a havia denunciado. Depois do tormento e de sair no auto-da-fé, celebrado no domingo, dia 31 de maio de 1592, foi obrigada a usar hábito penitencial perpétuo sobre suas vestimentas e ao cárcere, ingressando na ordem das freiras capuchas do recolhimento de Nossa Senhora da Piedade, em Almada, sob o nome de Lucrécia da Cruz. Em 29 de julho de 1596, atendendo a petiçãod e seu sobrinho, Valentim de Barros, os inquisidores concederam licença para que tirasse o hábito penitencial e fosse recolhida do mosteiro.

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O terceiro filho, Antônio Pedroso de Barros, que teria nascido em Lisboa por volta de 1569, viveu em Potosi com o seu pai e o seu tio, Manuel Pedroso, mas depois migrou para Buenos Aires, Salvador da Bahia, já em 1591, onde cruzou seu caminho o inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, que realizava naquela cidade a primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil. Apresentou-se voluntariamente, identificando-se como meio cristão-novo e filho de Jerônimo Pedroso e de sua mulher Joana Vaz de Barros, também ambos meios-cristãos novos. Após o infortúnio, rumou para a capitania de São Vicente, onde encontrou o irmão caçula e se casou com a filha do capitão-mor Jerônimo Leitão e de sua mulher Inês Castelão, Isabel Leitão.

Pedro Vaz de Barros: a povoação de São Paulo

Mais bem-aventurado que os irmãos mais velhos, Pedro Vaz de Barros nasce por volta de 1581 no Algarve e morreu em  São Paulo, no Brasil, a 8 de março de 1644. Até pelo menos 1591, ano em que suas irmãs foram presas, viveu na cidade de Tavira, na casa do seu cunhado Fernão Mendes, cristão-novo. Resolveu se dirigir à capitania de São Vicente, no Brasil, onde prestou serviços relevantes no descobrimento das minas em companhia de Dom Francisco de Sousa e onde ocupou importantes cargos da governança e da ordenança, como o de capitão-mor da dita capitania e o de provedor da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo. Casou provavelmente em São Paulo, cerca de 1608, com Luzia Leme, que nascera mais ou menos em 1583, filha legítima de Fernando Dias Pais e de sua mulher, Lucrécia Leme.

Atualmente, muitos brasileiros de raízes antigas  na região de São Paulo carregam o sangue destes primeiros patriarcas da família Pedroso. Especialmente Bernarda e Pedro deram origem a vasta e nobre descendência em solo brasileiro.

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