Patriarcas Sefarditas: Sebastião de Freitas

0
83

Um dos mais importantes patriarcas sefarditas a deixar descendência no Brasil foi, sem dúvidas, Sebastião de Freitas. Nascido provavelmente por volta de 1565 na cidade de Silves, no sul de Portugal onde, segundo Silva Leme, em sua Genealogia Paulistana, seu pai, Manuel Pires, foi provedor da Santa Casa de Misericórdia. Talvez quando jovem nem imaginasse que teria uma vida repleta de batalhas no além-mar.

Ingressou na carreira militar e, como soldado, foi enviado à Bahia em 1591 na Companhia do Capitão Gabriel Soares de Sousa, encarregado de acompanhar o Governador-Geral Francisco de Sousa em expedições que tinham como objetivo averiguar as informações prestadas por D. Robério Dias de que nos sertões havia ricas minas de prata. O minério não foi localizado, mas a missão rendeu a Francisco de Sousa o título de marquês, para desapontamento de Robério Dias, que tinha solicitado ao rei, D. Felipe I, exatamente este título como recompensa para apontar a localização das minas.

A mudança para o Brasil

No ano seguinte, Sebastião de Freitas seguiu para a capitania de São Vicente, onde casou com Maria Pedroso, filha do cirurgião Antonio Rodrigues de Alvarenga e Anna Ribeiro. Mas o casamento não o fez largar as armas, pelo contrário. Sob o comando do Capitão Jorge Correia, de quem foi imediato, em 1594 combateu os indígenas de Mogi, que cercavam a vila de São Paulo. Começava ali uma trajetória de lutas entre Sebastião de Freitas e os nativos brasileiros.

Em 1595 seguiu com seus escravos sob a liderança do Capitão Jerônimo Pereira de Sousa em nova guerra contra os indígenas locais, iniciando uma série de campanhas militares que tinham como inimigos nações indígenas e, em alguns casos, piratas holandeses. As lutas constantes lhe renderam o título de Cavaleiro em 1600, conferido por D. Francisco de Sousa e, em 22 de julho de 1606, recebeu do Capitão-mor Jerônimo Correia Souto Mayor a patente de “Capitão da Gente de Piratininga do Campo de São Paulo”, cuja principal responsabilidade era proteger os habitantes locais da presença inimiga na costa ou nos arredores da vila, responsabilidade esta que seria convocado a cumprir por diversas ocasiões, inclusive quando comandou uma tropa para socorrer a vila de Santos ameaçada pelos holandeses.

VOCÊ PODE COMEÇAR A SUA ÁRVORE GENEALÓGICA.

Mas se obteve destaque nas armas, exerceu também poder político. Sebastião de Freitas ocupou diversos cargos na Câmara de São Paulo, tornando-se um dos mais importantes homens da região e a quem atribuíam ter grande influência sobre o controle da vila, chegando a Juiz Ordinário em 1624.

A vida de bandeirante paulista

Embora haja toda a criação de uma mitologia heroica em torno de um protonacionalismo paulistano, naquele período nem se cogitava pensar nos habitantes locais como “brasileiros”, mas como “portugueses de São Paulo”, assim como havia os portugueses da Bahia, de Braga, Lisboa, Porto etc. Nosso personagem viveu em um período singular na política ibérica, conhecido como União Ibérica (1580-1640), quando D. Felipe (conhecido como D. Felipe II da Espanha e I de Portugal) unificou as coroas das duas potências coloniais. Mesmo com a união política, seguia o clima de hostilidades entre espanhóis e brasileiros na antiga fronteira do Tratado de Tordesilhas, com constantes choques e acusações de ambos os lados.

Diferente dos dias de hoje, a vida na região de São Paulo nos séculos XVI e XVII era marcada por privações. O principal negócio dos moradores daquela região era o comércio de escravos indígenas, usados como mão de obra na agricultura, o que os levava a adentrar cada vez mais longe o interior do território em busca de novos escravos. Estas expedições, formadas por portugueses e um grande número de nativos e mestiços aliados, ficaram conhecidas como bandeiras e foram responsáveis pelo alargamento das fronteiras rumo ao oeste e ao sul e o massacre de diversas nações indígenas.

Os Bandeirantes

Essas bandeiras tinham como principal objetivo a caça e aprisionamento de novos escravos, mas também buscavam riquezas diversas, como as drogas do sertão, ouro, prata e pedras preciosas. As missões jesuíticas representavam um alvo especialmente atrativo para esses bandeirantes, pois consideravam os indígenas que ali viviam sob a guarda de membros da Igreja mais fáceis de dominar. Essa prática despertou a ira dos religiosos, que constantemente acusavam os bandeirantes de crueldade e dos mais diversos crimes contra a Igreja.

Foi o caso da famosa bandeira de Antonio Raposo Tavares ao Guairá. Tavares saiu de São Paulo em abril de 1628 à frente de 900 portugueses, dentre os quais Sebastião de Freitas, e 2.200 índios, culminando com a destruição das missões locais em 1632. O padre espanhol Francisco Vasques Trujillo afirmou em carta ao rei, enviada logo após a destruição das missões do Guairá, que “esta gente de São Paulo” era judia e herege, que colocava imagens de Santa Maria e dos santos nas solas dos sapatos, faziam os escravos “guardarem os sábados”, comem carne na quaresma e justificavam o ataque à missões pela autoridade que “Moisés lhes dava na escritura”.

Por atacarem as missões jesuíticas, os bandeirantes eram genericamente acusados de judaísmo, o que no caso de muitos certamente tinha fundo de verdade. Sebastião de Freitas, por exemplo, aparece como cristão-novo, ou seja, judeu convertido, numa relação do Santo Ofício redigida durante a visitação de Pires da Veiga. O mais interessante é que Sebastião tomou a iniciativa de procurar o visitador para penitenciar-se por negar a virgindade de Nossa Senhora. Nos registros de tal visitação, apenas ele e Gaspar Gomes são mencionados como cristãos-novos.

VOCÊ PODE COMEÇAR A SUA ÁRVORE GENEALÓGICA.

Sebastião de Freitas faleceu em meados da década de 1640 em sua fazenda em Juqueri, onde se localiza atualmente o município de Mairiporã-SP. Seus descendentes povoam todo o interior paulista, Minas Gerais e partes do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, só para citar as regiões mais importantes. Os ramos familiares originados do casal Sebastião de Freitas e Maria Pedroso chegam facilmente às centenas, sendo tarefa difícil lista-las.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here